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Arquivos diários: 17 de Março de 2011

amor IV

 

Errante

 

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…

Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…

Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

 

 

A pergunta à qual preciso saber a resposta nem é que caminho deixo a minha alma errante percorrer, mas sim que caminho quer a minha alma errante percorrer? Espero saber em breve… muito em breve…

 


 
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Publicado por em 17 de Março de 2011 em alma, amor, dúvida, eu, florbela espanca, questão, resposta

 

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vida V

 

Hora que Passa

 

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho d’água triste… a vida corre…

Florbela Espanca, in “Livro de Sóror Saudade”

Sinto-me um cão abandonado que não sabe se tem dono nem sabe se o dono o procura. Um cão que apenas percorre o tempo de vida numa existência à espera que alguém o deseje ou queira e que o tome num abraço carinhoso e cheio de amor, envolto num abraço protector do resto do mundo que parece tão mau, tão negro, tão injusto, tão… assimétrico… Espero… Espero… Sonho… Sonho… E a vida vai passando, lentamente, esvaindo-se por entre os minutos infinitamente vazios e ocos desta triste existência a que alguns chamam de vida… 😦

 


 
2 Comentários

Publicado por em 17 de Março de 2011 em morte, mundo, poesia, sofrimento, solidão, tempo, tristeza, vida

 

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