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Arquivos diários: 25 de Junho de 2011

morte VI

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar.

Natália Correia

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Publicado por em 25 de Junho de 2011 em morte, Natália Correia, poesia

 

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vida XXI

Do Sentimento Trágico da Vida

Não há revolta no homem 
que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado 
que dentro fica agarrado 
à tábua da teoria. 

Aquilo que nele mente 
e parte em filosofia 
é porventura a semente 
do fruto que nele nasce 
e a sede não lhe alivia. 

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar. 

Rebeldia é o que põe 
na nossa mão um punhal 
para vibrar naquela morte 
que nos mata devagar. 

E só depois de informado 
só depois de esclarecido 
rebelde nu e deitado 
ironia de saber 
o que só então se sabe 
e não se pode contar. 

Natália Correia, in “Poemas (1955)”

a única certeza absoluta... é a morte...

 
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Publicado por em 25 de Junho de 2011 em Natália Correia, poesia, vida

 

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revolta silenciosa

As duas faces do mesmo “eu”…

.

Por fora, uma calma aparente sedento de amor e carinho

Por dentro, uma fúria controlada sedento de guerra e justiça

Por fora, uma bonança que procura a solidão

Por dentro, uma tempestade que quer atingir todos

Por fora, uma rocha inatingível

Por dentro, uma folha de papel frágil

Por fora, paz e calma

Por dentro, guerra e conflitos

eu...

Será que para ter paz interior tenho de inverter os papeis?

Será que tenho de ter guerra externa e conflitos com todos,

para ter a minha tão desejada paz interior?

 
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Publicado por em 25 de Junho de 2011 em eu

 

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sociedade III

A Hipocrisia do Ser

Para que servem esses píncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa prática e as nossas forças? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os propõe nem os seus auditores têm alguma esperança de seguir ou, o que é pior, desejo de o fazer. Da mesma folha de papel onde acabou de escrever uma sentença de condenação de um adultério, o juiz rasga um pedaço para enviar um bilhetinho amoroso à mulher de um colega. Aquela com quem acabais de ilicitamente dar uma cambalhota, pouco depois e na vossa própria presença, bradará contra uma similar transgressão de uma sua amiga com mais severidade que o faria Pórcia. E há quem condene homens à morte por crimes que nem sequer considera transgressões. Quando jovem, vi um gentil-homem apresentar ao povo, com uma mão, versos de notável beleza e licenciosidade, e com outra, a mais belicosa reforma teológica de que o mundo, de há muito àquela parte, teve notícia. Assim vão os homens. Deixa-se que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: nós tomamos outro, não só por desregramento de costumes, mas também frequentemente por termos opiniões e juízos que lhes são contrários.

Michel de Montaigne, in ‘Ensaios – Da Vaidade’

Como já o escrevi antes, estamos numa sociedade cada vez mais hipócrita. Uma sociedade aonde é mais importante parecê-lo do que sê-lo realmente. Uma sociedade aonde publicamente condenamos e em privado fazemos. Uma sociedade regida não por valores, mas por interesses.  Uma sociedade… abominável…

 
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Publicado por em 25 de Junho de 2011 em Homem, mundo, sociedade

 

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