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aprender a ver

17 Jul

Aprender a Ver

Aprender a ver – habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: nãoreagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, opoder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, aonovo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence. 

Friedrich Nietzsche, in “Crepúsculo dos Ídolos”

Ver é fácil, interpretar o que vemos já é difícil, assim como reagir ao estímulo do que vemos. Vemos melhor com os olhos fechados, perdendo o tempo necessário para interpretar o estímulo visual e pensando na reacção certa para o mesmo. A interpretação do que vemos é largamente influenciada pelo nosso ser, pelas nossas crenças, pela nossa confiança, por nós mesmos. Quantas vezes não vemos apenas o que queremos ver, iludindo-nos a nós próprios e, pior, quantas vezes a nossa reacção é manipulada por nós próprios, pelo que não queremos ver. O ver implica sentir, o estímulo provoca alterações internas no nosso ser, quando não queremos sentir, simplesmente não vemos, ignoramos…

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Publicado por em 17 de Julho de 2011 em alma, Friedrich Nietzsche, Homem

 

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