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Arquivos diários: 21 de Julho de 2011

medo II

Não Somos Capazes de Distinguir o que é Bom e o que é Mau
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Quantas vezes um pretenso desastre não foi a causa inicial de uma grande felicidade! Quantas vezes, também, uma conjuntura saudada com entusiasmo não constituiu apenas um passo em direcção ao abismo — elevando um pouco mais ainda alguém em posição eminente, como se em tal posição pudesse estar certo de cair dela sem risco! A própria queda, aliás, não tem em si mesma nada de mal se tomares em consideração o limite para lá do qual a natureza não pode precipitar ninguém. Está bem perto de nós o termo de tudo quanto há, está bem perto, garanto-te, o limite desta existência donde o venturoso se julga expulso e o desgraçado liberto; nós é que, ou por esperanças ou por receios desmesurados, a fazemos mais extensa do que realmente é. Se agires com sabedoria, medirás tudo em função da condição humana, e assim limitarás o espaço tanto das alegrias como dos receios. Vale bem a pena privarmo-nos de duradouras alegrias a troco de não sentirmos duradouros receios! Por que motivo procuro eu restringir este mal que é o medo? É que não há razão válida para temeres o que quer que seja; nós, isso sim, deixamo-nos abalar e atormentar apenas por vãs aparências. Nunca ninguém analisou o que há de verdade no que nos aflige, mas cada um vai incutindo medo nos outros; nunca ninguém se atreveu a aproximar-se do que lhe perturba o espírito e a averiguar a natureza real e fundamentada do seu medo. Daqui resulta o crédito que se dá a um perigo inexistente, que mantém a sua aparência porque ninguém o contesta a sério. Basta que nos decidamos a abrir bem os olhos para verificarmos como é diminuto, incerto e inofensivo aquilo que receamos. A confusão dos nossos espíritos corresponde perfeitamente à descrição de Lucrécio: «tal como as crianças no meio da escuridão tremem com medo de tudo, assim nós tememos em plena luz!». Pois bem, não seremos nós mais insensatos do que as crianças, nós que tememos em plena luz? A verdade, porém, Lucrécio, é que nós não tememos em plena luz, criamos, sim, trevas a toda a nossa volta! Não somos capazes de distinguir o que é bom e o que é mau; passamos toda a vida a correr, a tropeçar às cegas, e nem por isso somos capazes de parar ou de tomar atenção onde pomos os pés. Estás a imaginar como é coisa de loucos andar a correr no escuro! Valham-me os deuses! Não conseguimos mais nada senão termos de regressar de mais longe; sem saber para onde nos dirigimos, continuamos teimosamente a caminhar para onde o instinto nos leva. No entanto, se o quisermos, poderá fazer-se luz em nós. De um único modo: adquirirmos o conhecimento das coisas divinas e humanas, um conhecimento interiorizado, e não meramente superficial; meditarmos nessas ideias já adquiridas, comprovarmos a sua validade pela nossa própria experiência; investigarmos o que é bom e o que é mau, e a que coisas se atribui falsamente um ou outro destes adjectivos; averiguarmos em que consiste o bem e o mal éticos — e, finalmente, o que é a providência.
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Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’
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Publicado por em 21 de Julho de 2011 em Homem, medo, seneca

 

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culpa

Culpabilidade

O estado de pecado no homem não é um facto, senão apenas a interpretação de um facto, a saber: de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista moral e religioso. O sentir-se alguém «culpado» e «pecador», não prova que na realidade o esteja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem. Recordem-se os famosos processos de bruxaria; naquela época os juízes mais humanos acreditavam que havia culpabilidade; as bruxas também acreditavam; contudo, a culpabilidade não existia.

Friedrich Nietzsche, in ‘Genealogia da Moral’

Culpa… A culpa implica consciência, implica termos noção do bem e do mal, implica acharmos que fizemos mal. Como ateu, não acredito em pecado, acredito em boas e más acções, acredito em crime e acções eticamente ou moralmente erradas, mas não no pecado. O pecado é o equivalente religioso ao crime, ao eticamente errado. A culpa torna-se ambígua visto que o conceito do bem e do mal pode variar de individuo para individuo e porque implica consciência de termos feito algo errado. Podemos ter culpa e não a sentir, tal como podemos não ter culpa e sentirmos que somos culpados. Quando me sinto culpado (mesmo não tendo culpa) sinto-me mal, triste e desiludido comigo, não fico bem, massacro-me mentalmente, não durmo e não consigo mesmo nem sorrir. Cada um de nós reage de modo diferente, alguns não transparecem este sentimento de culpa e outros, nem a sentem. A culpa é como um fantasma, como uma vozinha que nos recorda permanentemente do errado, não nos poupa, consome a nossa paz, corrói a nossa alma e ensombra o nosso coração. Quando olho para trás, para a minha vida toda, num exercício retroinspectivo, vejo muitos erros que cometi, vejo muita coisa que podia e devia ter feito diferente, assim como vejo erros que fizeram para comigo. Mas não odeio ninguém, encontro sempre factores abonatórios e perdoo sempre, não está na natureza do meu ser guardar rancor de alguém. Mas tenho o defeito de quando odeio alguém, é mesmo ódio, raiva. Já me estou a desviar do assunto, que era culpa. Comecei a pensar em culpa e como se reage perante a culpa e, acho que a culpa depende da mentalidade de cada um, do que cada um vê como certo ou como errado, ou, mesmo que a pessoa ache errado, pode não sentir culpabilidade enquanto não for descoberto. Há pessoas que não revelam culpa até que se saiba os erros e, algumas, mesmo depois de desmascarados continuam alheios a este sentimento. O que despoletou esta divagação sobre culpa foi uma conversa que tive com um amigo que, mesmo depois de ter sido desmascarado continuou a viver como se nada fosse, alheio ao que fez outras pessoas sofrerem e, isto está mesmo longe do que eu penso ou sinto sobre o assunto… Mesmo que eu fosse capaz de fazer o que ele fez, não conseguia viver com a paz e felicidade com que ele vive… Sinto inveja de não ser assim, já o escrevi antes, agora preferia ser uma besta insensível…

 
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Publicado por em 21 de Julho de 2011 em culpa, erro, Friedrich Nietzsche

 

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