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29 Jul

O Efeito do Tempo e a Mutabilidade das Coisas

Deveríamos ter sempre diante dos olhos o efeito do tempo e a mutabilidade das coisas, por conseguinte, em tudo o que acontece no momento presente, imaginar de imediato o contrário, portanto, evocar vivamente a infelicidade na felicidade, a inimizade na amizade, o clima ruim no bom, o ódio no amor, a traição e o arrependimento na confiança e na franqueza e vice-versa. Isso seria uma fonte inesgotável de verdadeira prudência para o mundo, na medida em que permaneceríamos sempre precavidos e não seríamos enganados tão facilmente. Na maioria das vezes, teríamos apenas antecipado a acção do tempo. Talvez para nenhum tipo de conhecimento a experiência seja tão imprescindível quanto na avaliação justa da inconstância e mudança das coisas. Ora, como cada estado, pelo tempo da sua duração, existe necessariamente e, portanto, com pleno direito, cada ano, cada mês, cada dia parecem querer conservar o direito de existir por toda a eternidade. Mas nada conserva esse direito, e só a mudança é permanente. Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direcção que a mudança tomará. Por outro lado, o que via de regra faz os homens tomarem o estado provisório das coisas ou a direcção do seu curso como permanente é o facto de terem os efeitos diante dos olhos, sem todavia entender as suas causas. Mas são estas que trazem o germe das mudanças futuras, enquanto os efeitos, únicos existentes para os olhos, nada contêm de parecido. Os homens apegam-se aos efeitos e pressupõem que as causas desconhecidas, que foram capazes de produzi-los, também estão na condição de mantê-los. Nesse caso, quando erram, têm a vantagem de fazê-lo sempre em uníssono. Sendo assim, a calamidade que, em decorrência desse erro, acaba por atingi-los, é sempre universal, enquanto a cabeça pensante, caso erre, ainda permanece sozinha. Diga-se de passagem que temos aqui uma confirmação do meu princípio de que o erro nasce sempre de uma conclusão da consequência para o fundamento.

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’

Salvador Dali - The Persistence of Memory

Mudança implica a existência de tempo. Talvez nada seja eterno, excepto a mudança. Ainda ontem me disseram que eu estava muito diferente. A verdade é que me sinto diferente, mas sinto a realidade igual, como se estivesse preso numa realidade imutável, aonde só eu mudo. Não há nada melhor do que dor para despoletar uma mudança num ser humano. Tornei-me (ainda mais) calado, mais azedo, mais ausente da realidade, como se estivesse num sonho muito mau à espera de despertar. Olho o mundo que me rodeia e tudo me parece igual, mau, injusto, negro e doloroso e não me encaixo, por mais que mude, a “evolução” parece me afastar ainda mais deste mundo. Eu sei que o mundo muda mas eu não noto, talvez porque me tenha afastado demais ou talvez apenas porque mude muito lentamente. Eu mudei, para pior…

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Publicado por em 29 de Julho de 2011 em eu, mudança, mundo, tempo

 

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