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lágrimas VII

17 Set

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida …

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago …
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim …

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

As mágoas condensam-se e rolam na face como gotas de chuva. As memórias do paraíso que era estar a teu lado contrastam agora com o inferno da minha solidão. Porque me martirizo com as memórias? Porque até em sonhos tenho de chorar? Até os sonhos me relembram a triste realidade em que a minha existência se tornou. O passado destrói o presente e mata o futuro, arrasa qualquer tentativa de me levantar, de viver. Se o futuro depende do presente, como deixo que o passado interfira? Tantas questões, nenhuma resposta… São as lágrimas, a matéria da minha alma, a constante da equação da minha mera vida. Choro-as e não melhoro, choro-as à lua e ela é impotente para me ajudar, apenas me escuta e me acompanha nestas noites cada vez mais solitárias, nestas noites cada vez mais em branco.

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Publicado por em 17 de Setembro de 2011 em florbela espanca, poesia, vida

 

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