RSS

Arquivos diários: 11 de Abril de 2012

sonho #8

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

Fica aqui o poema completo:

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in “idades cidades divindades”

Anúncios
 
4 Comentários

Publicado por em 11 de Abril de 2012 em amor, mia couto, poesia, sonho

 

Etiquetas: , , ,

amor #58

A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in ” idades cidades divindades”

Quando se ama o tempo longe é uma eternidade, e o tempo juntinhos é sempre pouco…

 
2 Comentários

Publicado por em 11 de Abril de 2012 em amor, mia couto, poesia

 

Etiquetas: , ,

vida #66

Tudo em mim é diferente

sei que ainda te amo

mas sei que ainda me dóis

sei que ainda me feres

sei que ainda me magoas

ainda sangro por ti

sei que havia um limite

mas ultrapassei-o por ti

e custou-me a sanidade

custou-me a felicidade

custou-me o gosto de viver

agora só existo

na dimensão do tempo

a caminho do fim

a caminho da morte

senão me curar

e vivo entetanto

assim

entre o desejo de te amar

e o medo de te amar

anseio pelo fim

pelo fim deste sofrimento

anseio por um sorriso

um sorriso verdadeiro

anseio por essa metamorfose

de crisálida presa a um sofrimento

para uma borboleta livre e feliz

que voa rumo à felicidade

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 11 de Abril de 2012 em amor, vida

 

Etiquetas: ,

 
%d bloggers like this: