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Arquivo da Categoria: poesia

tempo #10

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in “A Casa, A Escuridão”

 
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Publicado por em 29 de Dezembro de 2011 em amor, José Luís Peixoto, poesia, tempo

 

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Poema do Silêncio

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
– Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista…

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá…

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio, in ‘As Encruzilhadas de Deus’

 
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Publicado por em 28 de Dezembro de 2011 em josé régio, poesia, silêncio

 

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lágrimas VII

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida …

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago …
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim …

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

As mágoas condensam-se e rolam na face como gotas de chuva. As memórias do paraíso que era estar a teu lado contrastam agora com o inferno da minha solidão. Porque me martirizo com as memórias? Porque até em sonhos tenho de chorar? Até os sonhos me relembram a triste realidade em que a minha existência se tornou. O passado destrói o presente e mata o futuro, arrasa qualquer tentativa de me levantar, de viver. Se o futuro depende do presente, como deixo que o passado interfira? Tantas questões, nenhuma resposta… São as lágrimas, a matéria da minha alma, a constante da equação da minha mera vida. Choro-as e não melhoro, choro-as à lua e ela é impotente para me ajudar, apenas me escuta e me acompanha nestas noites cada vez mais solitárias, nestas noites cada vez mais em branco.

 
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Publicado por em 17 de Setembro de 2011 em florbela espanca, poesia, vida

 

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destino V

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

a morte é a nossa última morada, o nosso destino final...

 
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Publicado por em 16 de Setembro de 2011 em destino, mia couto, morte, poesia

 

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(in)felicidade III

Tristeza

Nos dias de tristeza, quando alguém
Nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
Às vezes, nem sequer nós respondemos:
Faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
Sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
Pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
Do que este de não se ter alguém no mundo
Que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino

Vivemos contradições constantes, por um lado é muito mau falarmos em algo que nos faz mal, por outro lado também é mau sentirmos que não temos ninguém que se preocupe connosco ao ponto de nos perguntarem o que se passa connosco. Só o facto de alguém se preocupar, mesmo que não falemos do assunto, já é bom.

 
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Publicado por em 16 de Setembro de 2011 em poesia, sofrimento, solidão, tristeza, vida, Virgínia Vitorino

 

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(in)felicidade II

Tristêza

O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir…

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma… E fico a ouvir
Silencios da minh’alma e o resurgir
De mortos que me fôram sepultando…

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade…

Só a longinqua estrela em mim actua…
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade…

Teixeira de Pascoaes, in ‘Elegias’

 
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Publicado por em 16 de Setembro de 2011 em alma, poesia, Teixeira de Pascoaes, tristeza, vida

 

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vida XXXIX

Qualquer Tempo

Qualquer tempo é tempo. 
A hora mesma da morte 
é hora de nascer. 

Nenhum tempo é tempo 
bastante para a ciência 
de ver, rever. 

Tempo, contratempo 
anulam-se, mas o sonho 
resta, de viver.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Falta que Ama’

 
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Publicado por em 10 de Setembro de 2011 em Carlos Drummond de Andrade, poesia, tempo, vida

 

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sonho VIII

Quimeras

Há na minha vida quimeras distantes, 
Quais nuvens errantes, em dias atrozes. 
Eu corro atrás delas, mas elas, por fim, 
Perdem-se de mim, no horizonte, velozes. 

Há no meu diário silenciosas dores, 
Quais flores que o vento desfaz de manhã. 
Com elas me embalo nos dias soturnos, 
Dir-se-iam «Nocturnos», como os de Chopin. 

Há no meu caminho nem sei bem o quê. 
Alguém que me vê e que eu não visiono. 
São meus dias passados, meus dias de infância, 
Sabendo à fragrância das tardes de Outono. 

Saudades, saudades, sentido da vida, 
Um dia vivida e que não volta mais. 
Meus dias passados, sobre eles me debruço, 
No eterno soluço das coisas mortais. 

Há na minha vida um viver fictício, 
Fogo de artifício, esplendente e altivo. 
Eu vejo-o enlevado, um instante fugaz, 
Depois se desfaz na noite em que eu vivo. 

Há na minha vida ignotas tristezas, 
Pequenas certezas a que me apeguei. 
Com elas eu vivo, com elas eu morro, 
Para meu socorro é que eu as criei. 

Quimeras, quimeras, fumo de cigarro, 
Cachimbo de barro que um dia quebrei. 
Ópio sagrado, num templo budista, 
Já longe da vista, e que eu nunca fumei. 

Alfredo Brochado, in “Bosque Sagrado”

Sonhos, desejos e quimeras. Tudo faz parte da nossa vida. Alguns perseguem os sonhos, acreditando que são possivelmente realizáveis. Outros nem tentam, os sonhos são sonhos. Tudo se perde através do tempo, tudo se transforma, se altera em outros sonhos. Mas é importante sonhar, é importante ter algo que possamos sonhar porque sem sonho a vida é morte, sem desejo a vida é inerte, sem quimeras a vida é existência apenas.

 
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Publicado por em 4 de Setembro de 2011 em Alfredo Brochado, poesia, sonho, vida

 

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ausência II

Confissão
Vivo um drama interior. 
Já nele pouco a pouco me consumo. 
E de tanto te buscar, 
Mas sem nunca te encontrar, 
Sou como um barco sem leme, 
Que perdesse o rumo, 
No alto mar. 

Da minha vida, assim, 
O que vai ser nem sei! 
Dias alegres houvesse… 
E os dias são para mim 
Rosas mortas de um jardim 
Que um vendaval desfizesse. 

Tenho horas bem amargas. 
Eu o confesso, 
Eu o digo. 
E se tudo passa e esqueço, 
Esquecer o teu perfil 
É coisa que eu não consigo. 

Sofro por ti. O frio do que morre 
Amortalha a minha alma em saudade. 
Atrás de uma ilusão a minha vida corre, 
Como se fora atrás de uma verdade. 

A Deus peço, por fim, o meu sossego antigo. 
Não me persiga mais o teu busto delgado. 
Passo os dias e as noites a sonhar contigo, 
Na cruz da tua ausência estou crucificado. 

A tua falta sinto. Não o oculto. 
Ocultá-lo seria uma mentira. 
Vejo por toda a parte a sombra do teu vulto, 
Teu nome é para mim um mundo que me inspira. 

E em hora derradeira, 
Um dia, quando 
A Morte vier, 
E aos meus olhos chegar, 
Eu não terei sequer, à minha beira, 
Uns dedos finos de mulher 
Que mos possam fechar. 

Alfredo Brochado, in “Bosque Sagrado”

E os dias são para mim Rosas mortas de um jardim

 
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Publicado por em 29 de Agosto de 2011 em Alfredo Brochado, amor, ausência, poesia, saudade

 

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solidão IX

Este, que um deus cruel arremessou à vida, 
Marcando-o com o sinal da sua maldição, 
– Este desabrochou como a erva má, nascida 
Apenas para aos pés ser calcada no chão. 

De motejo em motejo arrasta a alma ferida… 
Sem constância no amor, dentro do coração 
Sente, crespa, crescer a selva retorcida 
Dos pensamentos maus, filhos da solidão. 

Longos dias sem sol! noites de eterno luto! 
Alma cega, perdida à toa no caminho! 
Roto casco de nau, desprezado no mar! 

E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto; 
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho! 
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar! 

Olavo Bilac, in “Poesias”

 
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Publicado por em 8 de Agosto de 2011 em alma, Olavo Bilac, poesia, solidão

 

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desânimo III

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser… 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto… 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço… 

Álvaro de Campos, in “Poemas” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 
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Publicado por em 25 de Julho de 2011 em cansaço, desânimo, fernando pessoa, poesia, vida

 

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amor XXXIII

Sofro de não te Ver

Sofro 
de não te ver, 
de perder 
os teus gestos 
leves, lestos, 
a tua fala 
que o sorriso embala, 
a tua alma 
límpida, tão calma… 

Sofro 
de te perder, 
durante dias que parecem meses, 
durante meses que parecem anos… 

Quem vem regar o meu jardim de enganos, 
tratar das árvores de tenrinhos ramos? 

Saúl Dias, in “Sangue (Inéditos)”

 
 

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mar IV

Solidão

Estás todo em ti, mar, e, todavia, 
como sem ti estás, que solitário, 
que distante, sempre, de ti mesmo! 

Aberto em mil feridas, cada instante, 
qual minha fronte, 
tuas ondas, como os meus pensamentos, 
vão e vêm, vão e vêm, 
beijando-se, afastando-se, 
num eterno conhecer-se, 
mar, e desconhecer-se. 

És tu e não o sabes, 
pulsa-te o coração e não o sente… 
Que plenitude de solidão, mar solitário! 

Juan Ramón Jiménez, in “Diario de Un Poeta Reciencasado” 
Tradução de José Bento

O mar pode aproximar, se por ele viajarmos rumo ao destino

O mar pode distanciar, se por ele não vamos para fugir

O mar, distância e aproximação

O mar, longe e perto

O mar, lágrimas e sorrisos

O mar, morte e vida

O mar, é o que quisermos que ele seja…

 
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Publicado por em 23 de Julho de 2011 em amor, Juan Ramón Jiménez, mar, poesia, solidão

 

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sombra

“Sombra”

Na sombra que o cansaço em mim demora
perpassam só memórias que no verso
se tornam alusão inconsistente

Mas não esqueci teu corpo: que não esquece
O que a memória não reteve nunca
Senão no vivo jeito de perder-se

 

Luís Filipe Castro Mendes In Poesia Reunida


 
 

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luta II

Guerra Civil

É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço

Absurda aliança
De criança
E de adulto.
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga

A minha guerra, ainda é comigo mesmo...

 
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Publicado por em 17 de Julho de 2011 em eu, luta, miguel torga, poesia

 

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