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Arquivo de etiquetas: Alfredo Brochado

sonho VIII

Quimeras

Há na minha vida quimeras distantes, 
Quais nuvens errantes, em dias atrozes. 
Eu corro atrás delas, mas elas, por fim, 
Perdem-se de mim, no horizonte, velozes. 

Há no meu diário silenciosas dores, 
Quais flores que o vento desfaz de manhã. 
Com elas me embalo nos dias soturnos, 
Dir-se-iam «Nocturnos», como os de Chopin. 

Há no meu caminho nem sei bem o quê. 
Alguém que me vê e que eu não visiono. 
São meus dias passados, meus dias de infância, 
Sabendo à fragrância das tardes de Outono. 

Saudades, saudades, sentido da vida, 
Um dia vivida e que não volta mais. 
Meus dias passados, sobre eles me debruço, 
No eterno soluço das coisas mortais. 

Há na minha vida um viver fictício, 
Fogo de artifício, esplendente e altivo. 
Eu vejo-o enlevado, um instante fugaz, 
Depois se desfaz na noite em que eu vivo. 

Há na minha vida ignotas tristezas, 
Pequenas certezas a que me apeguei. 
Com elas eu vivo, com elas eu morro, 
Para meu socorro é que eu as criei. 

Quimeras, quimeras, fumo de cigarro, 
Cachimbo de barro que um dia quebrei. 
Ópio sagrado, num templo budista, 
Já longe da vista, e que eu nunca fumei. 

Alfredo Brochado, in “Bosque Sagrado”

Sonhos, desejos e quimeras. Tudo faz parte da nossa vida. Alguns perseguem os sonhos, acreditando que são possivelmente realizáveis. Outros nem tentam, os sonhos são sonhos. Tudo se perde através do tempo, tudo se transforma, se altera em outros sonhos. Mas é importante sonhar, é importante ter algo que possamos sonhar porque sem sonho a vida é morte, sem desejo a vida é inerte, sem quimeras a vida é existência apenas.

 
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Publicado por em 4 de Setembro de 2011 em Alfredo Brochado, poesia, sonho, vida

 

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ausência II

Confissão
Vivo um drama interior. 
Já nele pouco a pouco me consumo. 
E de tanto te buscar, 
Mas sem nunca te encontrar, 
Sou como um barco sem leme, 
Que perdesse o rumo, 
No alto mar. 

Da minha vida, assim, 
O que vai ser nem sei! 
Dias alegres houvesse… 
E os dias são para mim 
Rosas mortas de um jardim 
Que um vendaval desfizesse. 

Tenho horas bem amargas. 
Eu o confesso, 
Eu o digo. 
E se tudo passa e esqueço, 
Esquecer o teu perfil 
É coisa que eu não consigo. 

Sofro por ti. O frio do que morre 
Amortalha a minha alma em saudade. 
Atrás de uma ilusão a minha vida corre, 
Como se fora atrás de uma verdade. 

A Deus peço, por fim, o meu sossego antigo. 
Não me persiga mais o teu busto delgado. 
Passo os dias e as noites a sonhar contigo, 
Na cruz da tua ausência estou crucificado. 

A tua falta sinto. Não o oculto. 
Ocultá-lo seria uma mentira. 
Vejo por toda a parte a sombra do teu vulto, 
Teu nome é para mim um mundo que me inspira. 

E em hora derradeira, 
Um dia, quando 
A Morte vier, 
E aos meus olhos chegar, 
Eu não terei sequer, à minha beira, 
Uns dedos finos de mulher 
Que mos possam fechar. 

Alfredo Brochado, in “Bosque Sagrado”

E os dias são para mim Rosas mortas de um jardim

 
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Publicado por em 29 de Agosto de 2011 em Alfredo Brochado, amor, ausência, poesia, saudade

 

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